Neve, de Orhan Pamuk
Escrito por: Alessandra Colla Soletti Tussi
O livro Neve relata a história do poeta e jornalista turco Ka. Exilado político (devido aos seus dias de esquerdista na juventude), Ka se vê obrigado a fugir para a Alemanha. Doze anos depois de uma vida solitária naquele país, ele retorna à Turquia para assistir ao enterro de sua mãe, em Istambul. Aproveitando a viagem, Ka decide visitar sua cidade natal “Kars” (que significa neve, em turco). Aliás, as semelhanças entre “Ka” e “Kars” não são apenas de grafia, pois ao longo do romance, é possível notar semelhanças entre a neve e os estados psicológicos do personagem Ka. Magnífico!
Ao povo de Kars, Ka explica que decidiu voltar à cidade na condição de repórter, para cobrir as eleições municipais e investigar a onda de suicídios entre jovens muçulmanas que especula-se, esteja ligada à proibição do uso do manto (lenço que cobre o cabelo e que tornou-se um símbolo do “Islã político”) nas escolas. No fundo, Ka sabe que o que o trouxe à Kars foi o desejo de encontrar-se com a misteriosa Ïpek, sua paixão desde a juventude.
Entre um encontro e outro com Ïpek, na confeitaria “Vida Nova” - aqui, imagino que o nome da confeitaria não seja por acaso, visto que tudo o que Ka ansiava era uma vida nova com Ïpek - uma nevasca fecha as estradas de acesso à cidade. Aproveitando o isolamento e para impedir que um candidato islâmico vença as eleições, acontece um golpe municipal. Ka acaba sendo obrigado a se envolvendo em meio as variadas conspirações políticas e fações que desejam o poder, incluindo um líder terrorista. O romance assume, então, um tom irônico sobre as facções políticas que dividem a Turquia (fundamentalistas islâmicos, nacionalistas radicais e separatistas curdos).
Um fato interessante do romance é que, na cidade de Kars, que o próprio personagem descreve como pobre, atrasada, triste e melancólica, um lugar onde “Deus não existe”, o ateu Ka volta a acreditar em Deus e se sente inspirado novamente a escrever seus poemas, depois de doze anos. Ka volta também a querer ser feliz e a saber o que é o amor. Tudo o que deseja é voltar para a Alemanha com Ïpek em seus braços.
Outro fato interessante é que Pamuk usa como título do capítulo a fala mais marcante desse mesmo capítulo e, como subtítulo, o verdadeiro nome do capítulo. Curioso e inteligente!
Há também, no livro “Neve”, alusões à Maçonaria mas, somente quem conhece os segredos dessa Fraternidade, conseguirá perceber.
A palavra “Neve” (título do livro), imagino eu que possa ser uma metáfora sobre amor, felicidade e a efemeridade da vida. Neve pode representar o amor puro que Ka sente por Ïpek e sua felicidade ao reencontrar o amor, o desejo de viver e a inspiração, mas também o quanto essas coisas podem ser efêmeras e, assim como a neve, derreter em pouco tempo, sem que tenhamos nenhum controle. Sei lá, é apenas um sentimento meu quanto ao livro.
Em entrevista a Veja, Orhan Pamuk afirmou que: “Neve é, ao mesmo tempo, um romance jornalístico e surrealista. É divertido escrever essas obras que misturam pesquisa e imaginação.”
E é assim, divertida e emocionante, a leitura do livro Neve. Assim que finalizei, concordei com a opinião do Daily Telegraph: “Pamuk é o tipo de escritor para o qual o prêmio Nobel foi inventado.” Boa leitura!
Minhas impressões sobre o livro:
É bastante estranho, mas ao mesmo tempo fascinante ler um livro cujo personagem principal, no caso “Ka”, se parece muito comigo. Ka é um poeta e, assim como eu, a maioria dos poemas que escreve surgem de momentos de tristeza e solidão. Ka é essencialmente urbano e gosta de morar em uma grande cidade, assim como eu. Os sentimentos que sua visita a pequena cidade de Kars provocam são, com exceção do sentimento da paixão, os mesmos que tenho quando visito a pequena cidade onde cresci.
Muito além da cidade de Kars, a obra de Pamuk retrata a posição que a Turquia ocupa no cenário mundial. O país foi fundado pelo general Mustafa Kernal, mais conhecido como Ataturk (”pai dos turcos”); que instaurou padrões ocidentais, como o fechamento de escolas religiosas e a proibição do uso do lenço (manto sobre o cabelo), que ainda causam ressentimentos. Embora a
Orhan Pamuk é um escritor primoroso, sua narrativa é cuidadosamente trabalhada e me fez chorar, sorrir, me emocionar, perambular um mês com seu livro debaixo do braço (aproveitando todas as oportunidades para lê-lo); e ainda inspirou duas poesias, que escrevi no site www.justale.com.br/momentos.
Fiquei com vontade de visitar todos os locais de Kars mencionados no livro. Por enquanto, fico apenas com as fotos da cidade e a vontade de ler todos os outros livros publicados por Pamuk. O próximo da lista é “Istambul“, sobre a cidade que sonho conhecer.
Livros de Orhan Pamuk em oferta: Vale a pena adquirir!
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01-09-2008 às 15:30
Já estava com vontade de ler “neve”, mas depois de ler sua resenha eu decidi: vou hoje mesmo à livraria!
Parabéns pelo site!!